Mariangela Hungria: A mulher que conversa com raízes

Mariangela Hungria em campo de soja analisando raízes com fixação biológica de nitrogênio, arte do Projeto Enquadre do Atlas das Vozes.
Por Rico Russo | ATLAS DAS VOZES

A cientista que ajudou o Brasil a economizar bilhões ao substituir fertilizantes químicos por bactérias no solo.

Mariangela Hungria é o tipo de pessoa que, se encontrasse Deus numa esquina de Londrina, não pediria salvação. Ia perguntar da qualidade do solo. Enquanto o mundo se ocupa com o apocalipse — sempre há um, de plantão — ela olha para baixo. Não para o abismo. Para a terra roxa. Ali onde a vida acontece sem plateia.

A mulher que conversa com raízes

Mariangela não tropeçou por acaso num laboratório. Formou-se engenheira agrônoma pela USP. Fez mestrado na Esalq, aquela escola de nome comprido que todo mundo no agro conhece de cor. Doutorou-se na UFRJ. Passou pela Universidade da Califórnia e por Cornell no pós-doutorado. Poderia ter escolhido corredor acarpetado e conferência internacional com crachá pendurado no pescoço. Preferiu a Embrapa Soja, no Paraná. Está lá desde 1991. Poeira, lavoura, experimento que falha, experimento que dá certo.

Em 2025, recebeu o World Agriculture Prize, concedido pela GCHERA (Global Confederation of Higher Education Associations for Agricultural and Life Sciences). É a primeira mulher da América Latina a conquistar o prêmio. Não é um Nobel formal, mas no setor agrícola é tratado como a distinção máxima. Não foi acaso. Foi sequência.

A pesquisa dela parte de um constrangimento global: o mundo depende de fertilizante nitrogenado químico. Custa caro, polui rios, emite gases de efeito estufa. A conta ambiental e financeira é alta.

A resposta não saiu de um laboratório de ficção científica. Saiu de uma bactéria.

Fixação Biológica de Nitrogênio. A técnica já existia. O que Mariangela fez foi torná-la previsível em escala. Trabalhou com microrganismos como Bradyrhizobium e Azospirillum, ajustando combinações, testando no solo paranaense, repetindo protocolo até deixar de ser hipótese e virar tecnologia aplicada.

Ela e a equipe experimentaram nos campos da Embrapa, em parceria com a Universidade Estadual de Londrina. O financiamento veio majoritariamente de recursos públicos — Embrapa e CNPq — além de fundações de apoio à pesquisa agrícola. Teve repetição de ensaio, erro de safra, ajuste fino. Ciência de campo.

Se você come soja, milho ou feijão, já cruzou com o trabalho dela sem saber. A tecnologia foi adotada em larga escala no Brasil. O país economiza cerca de 15 bilhões de dólares por ano ao reduzir a importação de fertilizantes nitrogenados, antes comprados sobretudo da Rússia e do Catar.

Não é tese encadernada. É lavoura em produção. Milhões de hectares utilizam inoculação e coinoculação de bactérias desenvolvidas ou aprimoradas por sua equipe.

O próximo passo é ampliar o uso da fixação biológica para gramíneas e cana-de-açúcar. Se consolidar, o impacto não será apenas econômico. A redução de emissões no agro brasileiro deixa de ser promessa e vira prática mensurável.

Talvez o futuro não venha em foguete. Talvez venha numa placa de Petri esquecida sobre uma bancada.

Fontes: GCHERA (World Agriculture Prize 2025); Embrapa Soja; Repositório Alice/Embrapa; Relatórios de Impacto Econômico da Embrapa; Academia Brasileira de Ciências; Web of Science; ResearchGate.

Sugestão de matéria do nosso leitor: Marcos Roberto Camargo dos Santos

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