O Espetáculo do Amém: quando a fé vira efeito manada

Féis em transe em um culto neopentecostal, representando o efeito manada e o teatro da fé.
Por Rico Russo | Humor e Cinismo | ATLAS DAS VOZES

O Espetáculo do Amém: quando a fé vira efeito manada. Se o Brasil fosse um país sério, as faculdades de Psicologia não estudariam Freud ou Jung; estudariam a primeira fila de um culto neopentecostal em noite de "libertação".

O que acontece ali não é metafísica, é física pura: o deslocamento de massas, o vácuo deixado pelo discernimento e a pressão atmosférica de mil gritos simultâneos. É o teatro do absurdo, mas sem o talento de Beckett e com uma bilheteria muito, muito mais vantajosa.

O Regente do Desespero

Tudo começa com o "profeta". Geralmente um sujeito que ostenta um terno de corte duvidoso, um relógio que brilha mais que a própria aura e uma voz que parece ter sido forjada no lodo da manipulação. Ele não prega; ele performa. Ele conhece a psicologia das massas melhor do que qualquer PhD em Harvard. Sabe exatamente em qual sílaba deve aumentar o tom de voz para causar o primeiro calafrio na plateia. É o regente de uma orquestra de desesperos.

A dinâmica é fascinante, quase zoológica. Na primeira fila, temos os "iniciadores". São os fiéis profissionais, aqueles que parecem ter um contrato de exclusividade com o Espírito Santo para entrar em transe nos primeiros cinco minutos. Eles choram, tremem e suspiram com uma pontualidade britânica. E é aqui que entra o efeito manada. A senhora da segunda fila, que só queria rezar pelo reumatismo, olha para o lado e pensa: "Meu Deus, por que eu não estou sentindo nada? Será que meu sinal com o céu está com interferência?".

Para não parecer insensível ou, pior, "desigrejada", ela força um soluço. O vizinho da terceira fila, temendo ser o único pecador seco naquela sala ensopada de lágrimas, resolve que é hora de levantar os braços e balbuciar algo que soe como aramaico, mas que não passa de uma mistura de dialeto de interior com som de rádio fora de sintonia. Em dez minutos, o que era um templo vira um setor de triagem de um hospital psiquiátrico em dia de surto coletivo.

Dados do IBGE e de institutos de pesquisa mostram que o setor evangélico é o que mais cresce no país, movimentando bilhões de reais anualmente. Não é para menos. Enquanto o varejo sofre com a inflação, o mercado da fé vende um produto imbatível: a promessa de prosperidade em troca de um boleto vencido. É o capitalismo espiritual. Você entrega o pouco que tem para um sujeito que garante que Deus vai te devolver em dobro, enquanto ele mesmo já recebeu a parte dele à vista, no altar.

O "falar em línguas", ou glossolalia para os íntimos da academia, é o ápice desse baile. É o momento em que a comunicação humana desiste de si mesma. É curioso que ninguém nunca fale em francês, alemão ou mandarim técnico. É sempre um "shala-balaias" genérico que serve para tudo e não explica nada. É a senha de acesso para o transe coletivo, um código que diz: "neste momento, ninguém é responsável pelos seus atos, muito menos o pastor pela sua conta bancária".

O efeito manada é o que sustenta as pirâmides, as modas de verão e as grandes congregações do escambo divino. É a pressão social do "sagrado". Se todo mundo está pulando, quem fica parado é suspeito. Se todo mundo está doando o carro, quem segura a carteira é egoísta. O indivíduo se dissolve na massa e, quando acorda do transe, percebe que a única coisa que realmente "voou" no culto foi o seu saldo bancário.

No final, as luzes se apagam, os gritos cessam e o suor seca. O público volta para casa com a sensação de dever cumprido e a alma lavada, enquanto o "homem de Deus" conta o faturamento nos bastidores, talvez rindo da facilidade com que o gado se entrega ao berrante. É triste, é cômico e é profundamente brasileiro. O púlpito virou palco, a oração virou script e o dízimo virou o ingresso mais caro do mundo para um show que nunca entrega o que promete.

O problema não é Deus. O problema é o fã-clube, especialmente aquele que acha que o Criador do Universo precisa de uma comissão de 10% para ouvir uma prece. No grande teatro da fé nacional, o roteiro é sempre o mesmo: muda o pastor, muda o terno, mas o público continua ali, na fila da frente, pronto para o próximo espetáculo do amém.

Indicador da Fé S/A Impacto Observado
Crescimento Setorial Segmento que mais cresce no Brasil segundo o IBGE.
Efeito Psicológico Dissolução do indivíduo em transe coletivo (Efeito Manada).
Modelo de Negócio Capitalismo espiritual baseado na Teologia da Prosperidade.
Comunicação Uso da glossolalia como ferramenta de catarse coletiva.
População prevista Estimativa de maioria evangélica no Brasil até 2032.
Situação atual Púlpito transformado em palco e dízimo em transação comercial.

Fontes: IBGE, Estudos de Psicologia Social e Arquivos Atlas das Vozes.

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